tenho visto através do zumbido, pelo trato complicado entre mim e a nuvem.
tenho visto onde todos caem
tenho arremessado frutas podres pela janela
da culpa e da louca
tenho visto a transformação dos sucos nos potes vazios
parece que não há
(e não há)
nada lá
mas deveria estar.
Pelo invólucro do nome
ou pelo H
ou pelo totem
ou por constar.
companheiros do barco,
há nada
onde deveríamos estar.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
quarta-feira, 28 de abril de 2010
O fantasma do canto esquerdo
o fantasma das certidões
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Fantasma de pés descalços no escuro

para dormir, leio até que os meus olhos fechem
e a luz permaneça acesa
brilhando
do lado de cá.
lá onde eu sonho, nunca temo - apocalipse, dança demente, estio ou Caverá -
lá onde eu sonho, nunca me perco - tateando o escuro pelo cheiro, pelos beiços
nem pelo avesso
nem com azar
lá de onde eu sonho
sempre dá pra voltar.
mas aqui, tenho medo de pés descalços em escuro de chão de vidro.
tenho medo de tudo o que eu quebrei por dentro
e não dá nem pra ajuntar.
mantenho a luz já que não aprendi a me calçar.
O fantasma das costas

Banho no calor dos outros,
espectro do ouro de tolo.
Procuro te dar um rosto ali onde perdemos o rumo.
Sabemos melhor do que não falamos,
sabemos melhor das costas que damos ao espírito do Último Outono
com manhã estrelar.
Sabemos quietinhos pelos pés:
chorando de frente
sem rosto
a nos conter
sem
nó
nenhum na corda
só a carne no sul.
E não era nada, não era nada
só um cortejo
pra entregar que sabemos nos cuidar.
Em mim, em ti,
germanicamente selados
sabemos nos cuidar.
O fantasma das costas é uma faca de confiar.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
sobre voce
começa a chover quando o dia acaba
-abacaxi
nos dedos de quem ouviu o calor e saiu quase descalço
- nu
dos joelhos pra baixo.
mas as crianças não temem e só gritam de lado
-oléoléolá,
benvinda essa chuva chegar.
penso em voce - e conheci por um dia
mas eramos quase a mesma guria
no jeito de crer
em sofrimento,
e sobreviver a si
como casamento.
eu nunca mais te vi, acho que dá azar andar com o espelho
e agora/
tem quem vai/
chorar-
dizer/
que vc/
não devia
ir,
embora
ir,
seja só
sobre vc.
(sobre mim
só a água
que sobe de ti)
chove sobre voce.
-abacaxi
nos dedos de quem ouviu o calor e saiu quase descalço
- nu
dos joelhos pra baixo.
mas as crianças não temem e só gritam de lado
-oléoléolá,
benvinda essa chuva chegar.
penso em voce - e conheci por um dia
mas eramos quase a mesma guria
no jeito de crer
em sofrimento,
e sobreviver a si
como casamento.
eu nunca mais te vi, acho que dá azar andar com o espelho
e agora/
tem quem vai/
chorar-
dizer/
que vc/
não devia
ir,
embora
ir,
seja só
sobre vc.
(sobre mim
só a água
que sobe de ti)
chove sobre voce.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
quando eu prefiro

prefiro quando voce não entende
mas captura
e tenta
mastiga e remoendo inventa
tira da boca e me devolve
uma estrela
feita de qualquer besteira.
prefiro quando voce não atende
nem percebe
que te procurei
mas tenta chegar comigo,
sem eira nem beira
prefiro quando voce não não encontra
o modo ou consulta
de escutar
o que eu boto e bato aqui dentro
mas circula amigo
na rotação de um provável fracasso
por dança.
quando eu prefiro,
voce.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
coisas que eu queria falar mas não sei como dizer.
o amor é só um pedaço;
no fundo é tudo sobre forças,
e fontes, e energias.
no fundo é tudo sobre forças,
e fontes, e energias.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
a última história de amor do ano - explicando o mito.
Eu não pensava em você até a hora em que abri a porta para sacudir a toalha da janta no quintal,
e a lua jorrou um branco tão impressionante arrebentando a noite sobre mim que fiquei zonzo, atordoado, tudo parou de doer e doeu o dobro ao mesmo tempo.
Achei que ia vomitar. Dei meia volta, entrei em casa e fui direto pro banheiro.
No caminho deixei a toalha em cima da mesa da cozinha e fiquei reparando na vontade que me dava, então não olhei pra ninguém.
Entrei no chuveiro gelado de roupa e tudo, se bem que só molhei a cabeça e as pernas por um segundo.
Me recomponho rápido, pra não pensar demais.
Na saída do banheiro reclamei com fúria do calor. Bateção de porta e tudo. Pai, mãe, os de casa me estranharam, mas era esse o meu normal.
Passei no quarto, peguei um cigarro e voltei lá fora.
A lua, essa cretina, que sempre estivera ali, agora me matava na fumaça que subia de mim. Noite existindo em cada um dos meus átomos, os assaltos, os suores, os televisores ligados, as chegadas, os motores em espera, os gatos, os postes, as lanchonetes, os grunhidos, os chorinhos, a quinta-feira, a adrenalina, os beijos, os grilos, os coelhos, a escuridão.
Quando acabou o meu cigarro, entrei em casa e nesse portal me lembrei com todo o corpo de ja ter sentido isso antes. Foi então que eu passei a pensar em voce.
Meus pais ainda estavam acordados vendo televisão; passei pela sala carregando o mundo nas bolsas dos olhos.
Quando eu passei, minha mãe disse que a minha bunda estava ficando grande. Acho que era algo que ela vinha esperando pra me dizer, porque ela nem olhou na hora em que disse, não tinha reparado ali. Aliás, ela escolheu o pior momento possível pra dizer isso.
Seria mentira se eu dissesse que não me lembro de ter cortado as gargantas dos coelhos. Não lembro de todo o processo, mas principalmente de pegar a faca e de todos os 11 cortes em si. Os sons deles se abrindo e evacuando a vida por aquele talho,
eu ainda consigo sentir todos os pedaços do ato.
Ninguém me viu fazendo isso. Suspeitaram de mim porque acordei coberto de sangue. Nunca encontraram a faca; intuitivamente suspeito que eu a engoli, mas se fosse mesmo eu já deveria ter tido algum problema.
Me perguntaram quase nada.
Passei aqueles dez dias na instituição e a minha família dizia pros outros que eu tinha tirado o apêndice, me fizeram uma cicatriz falsa e tudo.
Depois disso eu só parei de ouvir música, e tudo ficou bem.
e a lua jorrou um branco tão impressionante arrebentando a noite sobre mim que fiquei zonzo, atordoado, tudo parou de doer e doeu o dobro ao mesmo tempo.
Achei que ia vomitar. Dei meia volta, entrei em casa e fui direto pro banheiro.
No caminho deixei a toalha em cima da mesa da cozinha e fiquei reparando na vontade que me dava, então não olhei pra ninguém.
Entrei no chuveiro gelado de roupa e tudo, se bem que só molhei a cabeça e as pernas por um segundo.
Me recomponho rápido, pra não pensar demais.
Na saída do banheiro reclamei com fúria do calor. Bateção de porta e tudo. Pai, mãe, os de casa me estranharam, mas era esse o meu normal.
Passei no quarto, peguei um cigarro e voltei lá fora.
A lua, essa cretina, que sempre estivera ali, agora me matava na fumaça que subia de mim. Noite existindo em cada um dos meus átomos, os assaltos, os suores, os televisores ligados, as chegadas, os motores em espera, os gatos, os postes, as lanchonetes, os grunhidos, os chorinhos, a quinta-feira, a adrenalina, os beijos, os grilos, os coelhos, a escuridão.
Quando acabou o meu cigarro, entrei em casa e nesse portal me lembrei com todo o corpo de ja ter sentido isso antes. Foi então que eu passei a pensar em voce.
Meus pais ainda estavam acordados vendo televisão; passei pela sala carregando o mundo nas bolsas dos olhos.
Quando eu passei, minha mãe disse que a minha bunda estava ficando grande. Acho que era algo que ela vinha esperando pra me dizer, porque ela nem olhou na hora em que disse, não tinha reparado ali. Aliás, ela escolheu o pior momento possível pra dizer isso.
Seria mentira se eu dissesse que não me lembro de ter cortado as gargantas dos coelhos. Não lembro de todo o processo, mas principalmente de pegar a faca e de todos os 11 cortes em si. Os sons deles se abrindo e evacuando a vida por aquele talho,
eu ainda consigo sentir todos os pedaços do ato.
Ninguém me viu fazendo isso. Suspeitaram de mim porque acordei coberto de sangue. Nunca encontraram a faca; intuitivamente suspeito que eu a engoli, mas se fosse mesmo eu já deveria ter tido algum problema.
Me perguntaram quase nada.
Passei aqueles dez dias na instituição e a minha família dizia pros outros que eu tinha tirado o apêndice, me fizeram uma cicatriz falsa e tudo.
Depois disso eu só parei de ouvir música, e tudo ficou bem.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
intestinos
ele tecla, senta, levanta, olha nos olhos do colega enxergando nada, arquiva, se dirije a,
tecla
envia email
mensagem de texto
mensagem automática
mensagem telepática informando ao terminal at home o que deseja para o jantar -
e a que temperatura sua ave morta deve estar.
Mas ele não É onde está.
Não é a caminhada distraída por entre prateleiras de processadores e zumbidos;
nem conversa ensaiada que desperdiçava para com aquela que se chamava Mãe e despejava qq conteúdo em seus ouvidos;
menos ainda seu status social condizente com o exemplar masculino médio com 37 anos de desejos forjados para acreditar em satisfação.
As teclas estalam sob seus dedos onde ele está
mas ele É lá onde não há nomes.
O ladrilho da sala salgada estala sob os seus passos - onde ele está;
mas ele É lá onde, na beira de um mar que nunca viu continente vivo,
deitado na areia negro-esgoto,
monta de lado
um cavalo desenhado com conchas e latas.
tecla
envia email
mensagem de texto
mensagem automática
mensagem telepática informando ao terminal at home o que deseja para o jantar -
e a que temperatura sua ave morta deve estar.
Mas ele não É onde está.
Não é a caminhada distraída por entre prateleiras de processadores e zumbidos;
nem conversa ensaiada que desperdiçava para com aquela que se chamava Mãe e despejava qq conteúdo em seus ouvidos;
menos ainda seu status social condizente com o exemplar masculino médio com 37 anos de desejos forjados para acreditar em satisfação.
As teclas estalam sob seus dedos onde ele está
mas ele É lá onde não há nomes.
O ladrilho da sala salgada estala sob os seus passos - onde ele está;
mas ele É lá onde, na beira de um mar que nunca viu continente vivo,
deitado na areia negro-esgoto,
monta de lado
um cavalo desenhado com conchas e latas.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Senhora Gerador e Os escuridão
A velha Senhora Gerador insistia em dormir na casa que ficava sobre o cruzamento das linhas dos trens imaginários.
Não devia ser habitada, a casa. Era para ser um ponto de escoamento e redistribução de fluxo espaço-tempo, mas SG insistia que precisava dormir na sala do atravessamento.
Completando a equação, na Terra nasciam eletrossensíveis.
Eles eram a desculpa que a Senhora Gerador dava para sua exigência insistente; compensar Os escuridão, que com suas velas, seus livros de papel, seus lápis, canetas e instrumentos musicais, eram trancados em câmaras subterrâneas -
para que sobrevivam bem, mas nunca despertem mta curiosidade.
Protegidos da eletricidade,
Os escuridãos tem um fluxo sanguíneo mais baixo, as ondas cerebrais mais tranquilas e concentradas. Com o passar das gerações (única marcação de tempo válida ali) suas vozes foram dimuindo de volume. A comunicação se transformou em 100% de compartilhamento de informação dos ambientes;
muito além da simples telepatia, é um estado em que suas mentes estão no mesmo lugar. Se, por ventura, ainda há algo de idiossincrático a ser compartilhado, eles sopram nos ouvidos uns dos outros;
como voce venta, diz tudo sobre o que está pensando.
Não devia ser habitada, a casa. Era para ser um ponto de escoamento e redistribução de fluxo espaço-tempo, mas SG insistia que precisava dormir na sala do atravessamento.
Completando a equação, na Terra nasciam eletrossensíveis.
Eles eram a desculpa que a Senhora Gerador dava para sua exigência insistente; compensar Os escuridão, que com suas velas, seus livros de papel, seus lápis, canetas e instrumentos musicais, eram trancados em câmaras subterrâneas -
para que sobrevivam bem, mas nunca despertem mta curiosidade.
Protegidos da eletricidade,
Os escuridãos tem um fluxo sanguíneo mais baixo, as ondas cerebrais mais tranquilas e concentradas. Com o passar das gerações (única marcação de tempo válida ali) suas vozes foram dimuindo de volume. A comunicação se transformou em 100% de compartilhamento de informação dos ambientes;
muito além da simples telepatia, é um estado em que suas mentes estão no mesmo lugar. Se, por ventura, ainda há algo de idiossincrático a ser compartilhado, eles sopram nos ouvidos uns dos outros;
como voce venta, diz tudo sobre o que está pensando.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Coisinha

Coisinha de partículas dança dentro de si. Como um pequeno nevoeiro de mosquistos fosforescentes. Ou o nada tentando criar um corpo. Quasechuva se sente inteligente quando pensa sobre o nada e suas medíocres complexidades.
Revira os olhos de prazer por se imaginar sábio na eminência da morte, com a algoz barriguda estacionada no ato.
Suspeita que ela pode voltar a qualquer momento, assim como a sensação de seus tornozelos não terminarem mais em pés, só uma massa carnosa ao redor de ossos.
Coisinha é o que lhe resta, com os pirilampos elétricos.
- Alguma vez voce já sonhou com sapos? - Coisinha me pergunta.
Entendo mais ou menos o conceito de sonhar. Imagino que já tenha acontecido comigo uma ou outra vez, ainda assim, a prática toda é francamente sobrenatural demais pra que eu confesse qualquer entendimento sem me sentir constrangido.
Respondo ruborizando,
- com sapo nunca, porque?
- Queria saber o que significa; olha ela, está sonhando que sapos a tomam, de baixo pra cima. Ela parece parada, mas com um intenso fluxo interno - Demonstra estar gradativamente excitada com a situação da barriguda espancadora imóvel
e eu sigo pensando "a vida é engraçada!", também consigo ver os batráquios por dentro de seus pés e pernas e subindo pela sua barriga e sumindo no meio da sua cabeça;
dou umas risadas.
Eu e Coisinha somos do tipo bons expectadores da vida -
em constante maravilhamento -
e quando o fluxo aumentado do trânsito anfíbio ia deixar a coisa realmente louca,
pffffuuuuuuuuuP!
Tudo sumiu.
Coisinha pensa, ahhhh, é assim que chovem sapos na terra!
Concordo com o seu pensamento.
Tanta erva ruim entrou nesse meu corpo pelas feridas dos pés que não sei mais onde está minha cabeça.
Eu acho que sonhar com sapos siginifca alguma coisa boa, porque eles sempre são os primeiros a sumir.
-Pra voce eles são pura sorte - pirilampa - ela deixou os sapatos.
-mmm, de fato. Sapatos.
Quasechuva calça os sapatos e a pequena rã onírica que não seguira o fluxo dos sapos por medo de ser ridicularizada entre a multidão, entra pelo buraco sangrento dos tornozelos do herói.
Me sinto alimentado, ele diz.
Me sinto em casa, a rã pensa.
Estamos em algum lugar, Coisinha sente.
Naquela noite, quasechuva sonharia com um dedo mindinho que ao se arrastar por intermináveis dunas de areia
soltava um sonzinho
como trilha gosmenta.
Foi assim que seus pés voltaram a crescer.
Mas antes disso acontecer, sem nem mesmo pensar no que viria a acontecer apartir dali, sem decisão discutida, seguem-se para qualquer lado.
Ele ainda manca os cotocos,
enquanto Coisinha se conduz pelo ar.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
procurando olhos
Quasechuva desperta da transmissão na barriga da menina invisível alcançado pela dor. A mulher barriguda com ar tresloucado agora parte pra cima dele.
Com a velha, definitivamente acabou.
A mulher diz,
- voce está olhando pro nada, não tem nada ali, voce está vendo o nada, voce está vendo vendo vendo nada, voce comeu erva ruim, você comeu...
- Mas eu não estou vendo coisa alguma! Não estou nem olhando. Eu esto só...cansado. Tão cansado que deixo meus olhos pendurados no ar. - Não era uma desculpa muito boa, mas era um tipo de verdade.
Ela entretanto não se contenta nem controla, começa a armar a situação em que o matará de porrada: primeiro descer pesadas portas de insanidade sobre os olhos; então descontar toda a irmandade que poderia haver entre eles e simplesmente matar.
É uma coisa que acontece ali, o que começa não para mais.
Percebe o início do processo de sua morte.
Procura amárga-lo, não rola. Também não o aceita completamente, o fim podia ser mais interessante do que apanhando de mulher feia,
podia estar sedado pelo menos, mas se é o que há, se conforma.
A "coisinha" - que é uma nuvem de tons e sonidos - parece na dúvida entre entediada e assustada.
Ele não contava com mais nada.
Então, só pra concluir sua participação nessa existência,
perguntou:
-Porque isso?
Como é que chegara até sua morte?
A mulher parou o movimento. Não como se virasse estátua,
mais como se tivesse "sentado" em si, no meio de algo que armava.
Seu bote transformado num caminho suspenso.
Coisinha diz,
"o pesadelo é inominável".
Mas para Quasechuva,
-Não, não. Isso aí não vai servir.
Com a velha, definitivamente acabou.
A mulher diz,
- voce está olhando pro nada, não tem nada ali, voce está vendo o nada, voce está vendo vendo vendo nada, voce comeu erva ruim, você comeu...
- Mas eu não estou vendo coisa alguma! Não estou nem olhando. Eu esto só...cansado. Tão cansado que deixo meus olhos pendurados no ar. - Não era uma desculpa muito boa, mas era um tipo de verdade.
Ela entretanto não se contenta nem controla, começa a armar a situação em que o matará de porrada: primeiro descer pesadas portas de insanidade sobre os olhos; então descontar toda a irmandade que poderia haver entre eles e simplesmente matar.
É uma coisa que acontece ali, o que começa não para mais.
Percebe o início do processo de sua morte.
Procura amárga-lo, não rola. Também não o aceita completamente, o fim podia ser mais interessante do que apanhando de mulher feia,
podia estar sedado pelo menos, mas se é o que há, se conforma.
A "coisinha" - que é uma nuvem de tons e sonidos - parece na dúvida entre entediada e assustada.
Ele não contava com mais nada.
Então, só pra concluir sua participação nessa existência,
perguntou:
-Porque isso?
Como é que chegara até sua morte?
A mulher parou o movimento. Não como se virasse estátua,
mais como se tivesse "sentado" em si, no meio de algo que armava.
Seu bote transformado num caminho suspenso.
Coisinha diz,
"o pesadelo é inominável".
Mas para Quasechuva,
-Não, não. Isso aí não vai servir.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
diálogo dentro da menina
Me aproximo das mulheres. A barriguda que bate não respira, grunhe resfolegando como um ex-ser-agora-demônio completamente perdido pra raiva e pra loucura. A que apanha virou um saco de ossos com passagem marcada só de ida pra terra dos pés juntos, ainda que os dela estejam bem separados, como o resto do corpo num manancial não humano e caótico. A pequena, menina ou anã, já desapareceu concretamente do meu olhar. Emana uns tons, coloridos e sonoros. Prefiro me concentrar nessa, a que não vejo bem. Espremo os olhos, fixo, desejo vê-la.
O que enxergo é uma cena, como se a pequena fosse um tubo de imagem projetando uma história.
São dois meninos sentados na base de um paredão de terra vermelha. Parece o fundo de um buraco, de tamanho suficiente pra ser a fundação de uma daquelas edificações que chamavam "casa". (Quando eu era pequeno, tinha uma caixa de recortes de casa. Não sei quem deixou aquilo pra mim, nem entendia direito o que era, mas sentia uma bola de pêlos na garganta (uquéque é saudade vó?) quando olhava aquilo e queimei aos dez.)
Diálogo dentro da menina:
1)tu sabe que tem uns bicho que quando são preso, comem as proprias patas pra se soltar?
2)como assim uns bicho? como assim? uns bicho pode ser qualquer bicho, e o mais provável é que seja mentira.
1)ah, nem vem tu sabe que é verdade.
2)tah eu acho que ja ouvi falar, mas se tu vai me contar conta direito. que bicho? hein hein, que tipo de bicho?
1)ah, não lembro bem, mas era raposa, ou urso. Um tipo assim. Ou lobo.
2)tah, acho que entendi, um tipo assim, mamífero selvagem
1)é ahahahahahahahaha, isso aí, mas que fica engraçado fica dizer mamífero selvagem...
2)ué, engraçado porque?
1)sei lá, porque pensar numa coisa que mama e é selvagem...é engraçado né?
2)meu que idiota, praticamente todos os mamíferos são selvagens uma coisa não tem nada a ver com a outra....ou melhor tem tudo a ver...ah sei lá, acho que é engraçado só nessa tua cabeça podre aí...
1)iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....já começou a me tirar né? não sou cabeça podre não....só achei engraçado. mamar na teta, ser selvagem... ah, não tenho culpa se tu não pensa nas mesmas coisas que eu.
2)porra e não penso mesmo.
1)as vezes nem sei porque tu fica andando comigo, então.
2)nem eu, na real eu acho que vou embora
1)tah....mas tem certeza? eu acho que deve tah doendo ainda...
2)que doendo o que...o que tem pra estar doendo hein?
1)e tu tah com essa cara aí, esse olho cheio de água porque então?
2)mas nem to nada. NEM TO NADA. olha aqui bem pra mim, não to nada. COISA NENHUMA.
1)vamo dize que é só impressão minha então...mas que ele te machucou machucou....
2)bosta nenhuma. se não dói é porque não machucou. aprende comigo, aprende. aprende alguma coisa. SE NÃO MACHUCOU É PORQUE VC NÃO APANHOU. então tah inteiro, tah vivo.
1)mesmo que....
2)mesmo que qualquer coisa.
1)mmmm, legal. vou tentar me lembrar disso da proxima vez que alguém me bater...
2)CARALHO, NINGUÉM ME BATEU TAH?
1)ta, tah...calma aí, ninguem te bateu meu, tah tudo certo, como voce quiser....
2)sabe o que eu queria agora? um café preto. com cachaça. e um cigarro, mas um cigarro daqueles bem vagabundos sabe?
1)aposto que tu nunca fumou nem tomou café preto. muito menos com cachaça...
2)é animal...mas sempre tem um dia em que a gente começa. seu porra de mamífero selvagem...
O que enxergo é uma cena, como se a pequena fosse um tubo de imagem projetando uma história.
São dois meninos sentados na base de um paredão de terra vermelha. Parece o fundo de um buraco, de tamanho suficiente pra ser a fundação de uma daquelas edificações que chamavam "casa". (Quando eu era pequeno, tinha uma caixa de recortes de casa. Não sei quem deixou aquilo pra mim, nem entendia direito o que era, mas sentia uma bola de pêlos na garganta (uquéque é saudade vó?) quando olhava aquilo e queimei aos dez.)
Diálogo dentro da menina:
1)tu sabe que tem uns bicho que quando são preso, comem as proprias patas pra se soltar?
2)como assim uns bicho? como assim? uns bicho pode ser qualquer bicho, e o mais provável é que seja mentira.
1)ah, nem vem tu sabe que é verdade.
2)tah eu acho que ja ouvi falar, mas se tu vai me contar conta direito. que bicho? hein hein, que tipo de bicho?
1)ah, não lembro bem, mas era raposa, ou urso. Um tipo assim. Ou lobo.
2)tah, acho que entendi, um tipo assim, mamífero selvagem
1)é ahahahahahahahaha, isso aí, mas que fica engraçado fica dizer mamífero selvagem...
2)ué, engraçado porque?
1)sei lá, porque pensar numa coisa que mama e é selvagem...é engraçado né?
2)meu que idiota, praticamente todos os mamíferos são selvagens uma coisa não tem nada a ver com a outra....ou melhor tem tudo a ver...ah sei lá, acho que é engraçado só nessa tua cabeça podre aí...
1)iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii....já começou a me tirar né? não sou cabeça podre não....só achei engraçado. mamar na teta, ser selvagem... ah, não tenho culpa se tu não pensa nas mesmas coisas que eu.
2)porra e não penso mesmo.
1)as vezes nem sei porque tu fica andando comigo, então.
2)nem eu, na real eu acho que vou embora
1)tah....mas tem certeza? eu acho que deve tah doendo ainda...
2)que doendo o que...o que tem pra estar doendo hein?
1)e tu tah com essa cara aí, esse olho cheio de água porque então?
2)mas nem to nada. NEM TO NADA. olha aqui bem pra mim, não to nada. COISA NENHUMA.
1)vamo dize que é só impressão minha então...mas que ele te machucou machucou....
2)bosta nenhuma. se não dói é porque não machucou. aprende comigo, aprende. aprende alguma coisa. SE NÃO MACHUCOU É PORQUE VC NÃO APANHOU. então tah inteiro, tah vivo.
1)mesmo que....
2)mesmo que qualquer coisa.
1)mmmm, legal. vou tentar me lembrar disso da proxima vez que alguém me bater...
2)CARALHO, NINGUÉM ME BATEU TAH?
1)ta, tah...calma aí, ninguem te bateu meu, tah tudo certo, como voce quiser....
2)sabe o que eu queria agora? um café preto. com cachaça. e um cigarro, mas um cigarro daqueles bem vagabundos sabe?
1)aposto que tu nunca fumou nem tomou café preto. muito menos com cachaça...
2)é animal...mas sempre tem um dia em que a gente começa. seu porra de mamífero selvagem...
sábado, 12 de setembro de 2009
subindo a colina
enquanto caminho ate as tres criaturas - e a medida que me aproximo a menor delas se apaga - penso que não deveria estar aqui
ou qualquer lugar
me lembro que eu tinha um quarto e uma cama onde aceitei morrer
até que ela me arrastou para fora
me obrigou a ve-la ir, assisti-la desistir de morrer comigo
partir
quebrar
algo próximo a uma esperança que tínhamos.
percebo que estou com os pés no osso, tocos, porque saí sem sapatos
sabendo que se ela embarcasse
não me importaria caminhar.
eu não sabia o quanto eu saberia fingir. e ir.
nem que seja por vingança
demorar um pouco mais até encontrá-la do outro lado
se é que há.
nem sei se eu deveria temer. ou sucumbir. nem sei se ainda estou em mim ou se a erva já me levou e sigo num moto-contínuo de existir.
saí da cama por ela
porque no fundo acreditava que com a minha cara horrível mas presente
ali ao lado
ela não teria coragem de ir.
quando ela subiu no trem esqueci esqueci esqueci esqueci esqueci na mesma cadencia do trem nos trilhos
esqueci.
há muita dor pra quem não esquece. muito deus. muita sobrevivência.
eu só sapato sapato cigarros.
estou bem perto das outras três, a menor é só um feixe de luz, não conto que ela exista.
a que está no chão já deve estar morta com tantas porradas.
se eu apanhar da mulher - vejo nitidamente uma mulher grávida que bate - baterei nela sem piedade.
tenho muitos motivos pra bater.
zaira nunca vai me pagar por ter disistido fingindo que tenta.
me chamo quasechuva e acho que já me ferrei demais. ou talvez só esteja me armando.
sapatos, sapatos, cigarros.
ou qualquer lugar
me lembro que eu tinha um quarto e uma cama onde aceitei morrer
até que ela me arrastou para fora
me obrigou a ve-la ir, assisti-la desistir de morrer comigo
partir
quebrar
algo próximo a uma esperança que tínhamos.
percebo que estou com os pés no osso, tocos, porque saí sem sapatos
sabendo que se ela embarcasse
não me importaria caminhar.
eu não sabia o quanto eu saberia fingir. e ir.
nem que seja por vingança
demorar um pouco mais até encontrá-la do outro lado
se é que há.
nem sei se eu deveria temer. ou sucumbir. nem sei se ainda estou em mim ou se a erva já me levou e sigo num moto-contínuo de existir.
saí da cama por ela
porque no fundo acreditava que com a minha cara horrível mas presente
ali ao lado
ela não teria coragem de ir.
quando ela subiu no trem esqueci esqueci esqueci esqueci esqueci na mesma cadencia do trem nos trilhos
esqueci.
há muita dor pra quem não esquece. muito deus. muita sobrevivência.
eu só sapato sapato cigarros.
estou bem perto das outras três, a menor é só um feixe de luz, não conto que ela exista.
a que está no chão já deve estar morta com tantas porradas.
se eu apanhar da mulher - vejo nitidamente uma mulher grávida que bate - baterei nela sem piedade.
tenho muitos motivos pra bater.
zaira nunca vai me pagar por ter disistido fingindo que tenta.
me chamo quasechuva e acho que já me ferrei demais. ou talvez só esteja me armando.
sapatos, sapatos, cigarros.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Chegando a algum lugar.
quando finalmente acordo,
depois de dormir, pesadelar, zumbizar, poetizar, atomizar, sofrer de fome
enlouquecer
e voltar
passaram-se varias partes do tempo chamadas dia.
Meus pés se transformaram em tocos. Movimento-me mais por estocadas na terra do que passos. Mas isso não me preocupa; estou apreensivo pela quase certeza de ter comido erva ruim. O que mais poderia ter me colocado nesse estado por tanto tempo e me anestesiado a ponto de não sentir dor nem falta das minhas extremidades?
Era bom esse efeito de seguir andando apesar de tudo.
Esse era o mais preocupante sintoma de erva ruim.
A última coisa de que me lembro é de pensar em sapatos e que encontraria os sapatos e que não pararia até sapatos.
Que eu desejara cigarros.
E mais adiante vira um clarão azul. O azul não parecia inofensivo ou saudável. Mas achei que não me antingiria.
O que quer que fosse, já tinha agarrado. Vou continuar. Talvez uma versão estragada de mim mesmo, mas vou continuar caminhando.
De qualquer forma, só lembro claramente do estrago de tempos em tempos.
Recordo vagamente de algum parente, uma tia, minha mãe talvez até, me contar sobre uma sensação parecida com isso que era "estar apaixonada". Lembro que ela contou passar dias inteiros na frente do computador. Falando com o namorado. Trocando emails. Instantaneamente. Arquivos. Essas merdas que eu não peguei.
E ela me dizia que se sentia como se estivesse sentada no parque vendo o sol e tocando o cara. E que a sensação que isso causava lhe apertava todos os orgãos internos. Constritos. Parece que com o tempo de convivencia a tendencia era que a sensação fosse amenizando. Se parasse totalmente é porque "não tinha mais nada a ver". Tenho até a impressão de que me divirto mais com essa história lembrando-a agora. Na época, não me fazia sentido algum, só muito chata. Entendo melhor sadomasoquismo.
E quero encontrar sapatos. Não sinto fome e não me perguntarei mais o porquê. Que venha o porquê e o porvir; e lá
logo adiante
eu vejo: Três vultos. Podem ser moças.
Daqui, eu já sei, eu já sinto, que a situação não é das melhores. A maior bate numa delas que está deitada, enquanto a menor, uma anã ou uma criança, grita desesperada.
Nem com uma luz perfeita como a do dia de hoje sobre um campo florido de erva ruim, esta cena é palatável ou de bom augúrio.
Mas é o meu destino ali na frente, meus sapatos logo adiante, e é pra lá que eu vou.
depois de dormir, pesadelar, zumbizar, poetizar, atomizar, sofrer de fome
enlouquecer
e voltar
passaram-se varias partes do tempo chamadas dia.
Meus pés se transformaram em tocos. Movimento-me mais por estocadas na terra do que passos. Mas isso não me preocupa; estou apreensivo pela quase certeza de ter comido erva ruim. O que mais poderia ter me colocado nesse estado por tanto tempo e me anestesiado a ponto de não sentir dor nem falta das minhas extremidades?
Era bom esse efeito de seguir andando apesar de tudo.
Esse era o mais preocupante sintoma de erva ruim.
A última coisa de que me lembro é de pensar em sapatos e que encontraria os sapatos e que não pararia até sapatos.
Que eu desejara cigarros.
E mais adiante vira um clarão azul. O azul não parecia inofensivo ou saudável. Mas achei que não me antingiria.
O que quer que fosse, já tinha agarrado. Vou continuar. Talvez uma versão estragada de mim mesmo, mas vou continuar caminhando.
De qualquer forma, só lembro claramente do estrago de tempos em tempos.
Recordo vagamente de algum parente, uma tia, minha mãe talvez até, me contar sobre uma sensação parecida com isso que era "estar apaixonada". Lembro que ela contou passar dias inteiros na frente do computador. Falando com o namorado. Trocando emails. Instantaneamente. Arquivos. Essas merdas que eu não peguei.
E ela me dizia que se sentia como se estivesse sentada no parque vendo o sol e tocando o cara. E que a sensação que isso causava lhe apertava todos os orgãos internos. Constritos. Parece que com o tempo de convivencia a tendencia era que a sensação fosse amenizando. Se parasse totalmente é porque "não tinha mais nada a ver". Tenho até a impressão de que me divirto mais com essa história lembrando-a agora. Na época, não me fazia sentido algum, só muito chata. Entendo melhor sadomasoquismo.
E quero encontrar sapatos. Não sinto fome e não me perguntarei mais o porquê. Que venha o porquê e o porvir; e lá
logo adiante
eu vejo: Três vultos. Podem ser moças.
Daqui, eu já sei, eu já sinto, que a situação não é das melhores. A maior bate numa delas que está deitada, enquanto a menor, uma anã ou uma criança, grita desesperada.
Nem com uma luz perfeita como a do dia de hoje sobre um campo florido de erva ruim, esta cena é palatável ou de bom augúrio.
Mas é o meu destino ali na frente, meus sapatos logo adiante, e é pra lá que eu vou.
sábado, 5 de setembro de 2009
o amor explode como pipoca no milharal. pra além dos olhos tem verdade como varais de roupa no sabado de tarde.
o amor explode como a saída do inverno dos improváveis. como uns passos novos de dança.
como a desculpa em químicos - como uma música feita para despertar.
o amor explode como uma banda atrás de um pop perfeito.
um comentário sobre o tempo encobrindo a existência de desejos.
o amor mora em cidades distantes que se misturam por túneis carnívoros de amizade.
o amor despista o cansaço porque os melhores amigos estão por perto. e lavam as dores que não combinam mais com o novo fetiche do rosto.
o amor nos convoca a mergulhar em poças de profundidade insegura.
e a conversas desnecessárias.
e a doar um pouco de cérebro além dos rins e do sangue.
o amor é o milagre da nossa engenharia.
e a cola da matéria.
é uma ferida aberta. infeccionando pelos minutos de exposição.
é uma mentira coberta de razão.
é dormir para encobrir a verdade.
expor-se ao toco do osso do ridículo.
derreter na cadeira até o fim do medo.
dormir e chorar pra se limpar
dançar até passar
e não passar
é encontrar uma música nova
pra sofrer sem saber porque. é uma noite que nunca terminou.
é uma noite que nunca terminará
esvaziar todos os bolsos da racionalidade e sobreviver.
é fechar os olhos e ver com exatidão o rosto onde voce errou.
um erro que te perseguirá;
um desejo digno de permanecer.
uma permanência sem sentido. só sensação.
o amor explode como a saída do inverno dos improváveis. como uns passos novos de dança.
como a desculpa em químicos - como uma música feita para despertar.
o amor explode como uma banda atrás de um pop perfeito.
um comentário sobre o tempo encobrindo a existência de desejos.
o amor mora em cidades distantes que se misturam por túneis carnívoros de amizade.
o amor despista o cansaço porque os melhores amigos estão por perto. e lavam as dores que não combinam mais com o novo fetiche do rosto.
o amor nos convoca a mergulhar em poças de profundidade insegura.
e a conversas desnecessárias.
e a doar um pouco de cérebro além dos rins e do sangue.
o amor é o milagre da nossa engenharia.
e a cola da matéria.
é uma ferida aberta. infeccionando pelos minutos de exposição.
é uma mentira coberta de razão.
é dormir para encobrir a verdade.
expor-se ao toco do osso do ridículo.
derreter na cadeira até o fim do medo.
dormir e chorar pra se limpar
dançar até passar
e não passar
é encontrar uma música nova
pra sofrer sem saber porque. é uma noite que nunca terminou.
é uma noite que nunca terminará
esvaziar todos os bolsos da racionalidade e sobreviver.
é fechar os olhos e ver com exatidão o rosto onde voce errou.
um erro que te perseguirá;
um desejo digno de permanecer.
uma permanência sem sentido. só sensação.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
o último dia de agosto
Há alguns anos atrás - não sei quantos - nunca lembrarei - deveria? - entraram na minha casa, ao meio dia
e levaram Tudo o que eu tinha.
"Tudo" nunca foi o computador, mas cada palavra guardada ali e irretornável,
"Tudo" nunca foi meu aparelho de som, mas a fitinha toscamente gravada com musicas escritas pra mim
por um amor irretornável,
"Tudo" nunca foram os meus brincos - mas o prazer de escutar a escuridão
"Tudo" nunca foram as miudezas incontáveis, os discos, os filmes, os livros, os cordões
Tudo o que levaram foi uma capsula que me protegia de um nível de contágio do mundo.
O que me levaram foi não ter medo do mês de agosto.
Deixaram pra trás vergonha das gavetas escancaradas, chorar debaixo do chuveiro,
sobrevivencia,
e dormir de luz acesa.
Ali começou minha segunda infância. A noite comprida mais solitária das crianças.
Há alguns anos, tenho medo de alguma coisa hoje.
e levaram Tudo o que eu tinha.
"Tudo" nunca foi o computador, mas cada palavra guardada ali e irretornável,
"Tudo" nunca foi meu aparelho de som, mas a fitinha toscamente gravada com musicas escritas pra mim
por um amor irretornável,
"Tudo" nunca foram os meus brincos - mas o prazer de escutar a escuridão
"Tudo" nunca foram as miudezas incontáveis, os discos, os filmes, os livros, os cordões
Tudo o que levaram foi uma capsula que me protegia de um nível de contágio do mundo.
O que me levaram foi não ter medo do mês de agosto.
Deixaram pra trás vergonha das gavetas escancaradas, chorar debaixo do chuveiro,
sobrevivencia,
e dormir de luz acesa.
Ali começou minha segunda infância. A noite comprida mais solitária das crianças.
Há alguns anos, tenho medo de alguma coisa hoje.
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